Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Quem é “o mercado”? De quem é a “crise”?

dezembro 8, 2016

Ninguém o vê ou o ouve. Mas o mercado vê tudo. É omnisciente e omnipotente. Como um deus, ele é louvado, agradado, adorado e temido. Façam a dança da chuva para o Mercado. O Mercado não está reagindo bem aos impactos do balanço fiscal federal de 1993. Às medidas de cautelização previdenciária do fundo de derivados da Islândia. Precisamos cortar os gastos. Cortem os pulsos. Derramem sangue. O sacríficio é para o bem. A oferenda também sabe que é para seu próprio bem. É para o bem de todos. Primeiro corte o pescoço, ali jorra mais sangue. Não pense em crise, trabalhe. Até os 79 anos.

Os noticiários de jornal divulgam a ideia. Todos os comentaristas conhecem a “vontade” do mercado. Façamos o que o mercado quer. Está na Bíblia. Mas quem, afinal de contas, é o mercado? O mercado nada mais é do que um fantasma entificado por meio de discurso ideológico. Desfetichizado, ele é somente relações humanas de produção e troca, por mais abstratas que possam ser no nível da financeirização e do cassino especulativo. Qual critério usar para dizer o que é bom para o mercado? Como “o mercado” reage? A resposta deveria ser bem mais simples: o que é bom para as pessoas?

Com esta fetichização do monismo do mercado, o que se instaura é uma visão que supostamente divulga uma realidade totalitária por números e estatísticas. A “economia cresceu”. A economia “está em crise”. Mas quando cresce, cresce com o que e para quem? O quanto um “crescimento” simboliza um enriquecimento real das pessoas? De quais pessoas? Quando o “mercado aquece” (hot and sexy market!) o que o excita pode ser simplesmente produção supérflua. Do que adianta o “mercado crescer”, se boa parte da fatia deste bolo vai para poucos bolsos? Ainda quando se tem uma aparente distribuição de riqueza, a longo prazo são os mesmos que acumulam. E quando a “crise” aparece, os endividados pela sobrevivência é que “quebram”.

E quando o estado não pode pagar sua dívida, a empresa privada, que não tem nada com isso, fica com medo que o “mercado” não seja favorável. Mesmo que ninguém saiba direito o porquê.

Não é hora de parar de enganar com o discurso político, midiático e hipócrita de que “dados econômicos” financeiros mostram toda a realidade, ou que eles são eticamente confiáveis para mostrar o caminho?

Da produção, o que garante às pessoas realmente uma vida boa? O que realmente satisfaz suas necessidades? Deste trabalho diário, o que é realmente necessário? O que é útil? Útil para quem?

Por fim, se todos trabalham, e passam boa parte das vidas trabalhando e se preparando para o trabalho, e fazendo coisas de graça pela oportunidade de um dia ter um trabalho, por que existe “crise”? Se trabalho gera riqueza, e todos trabalham, não pode ser verdade que não há riqueza. Ou esse trabalho não gera riqueza. Onde está a riqueza? Ou: por que se trabalha, se o trabalho não  fornece a riqueza que se precisa? (Menos ingênuo: para quem se trabalha? Quem criou a “crise”?). Se não se trabalha e se pode e se quer trabalhar, por que não há espaço para o trabalho? (Menos ingênuo: a quem pertence o espaço do trabalho? Quantas crises ele tem?)

Débitos e créditos sobre coisas que não existem. Mas que um dia virão a existir. Até que se descubra que não existem mais. Nunca existiram. Bolhas. Borbulham promessas não cumpridas. Sobre coisas que não existem. O mercado não vai receber a sua parcela da dívida. Porque o mercado decidiu que você não vai mais ter emprego. E seu trabalho não poderá ser trabalhado. Você não pode mais trabalhar – você não tem mais como nem onde. A bolha comeu o seu trabalho e está braba que você não devolveu o que você sempre deu a ela como se não fosse seu.

Carnes sólidas se escondem em máscaras que lhes abstraem a realidade, para ocultar o que é cruel. Sob a manta do “mercado”.

Extirpar todos os recursos naturais de forma não renovável. Transformar aquele espaço onde se poderia respirar e beber água de graça em um “mercado” onde se trabalha para comprar água e oxigênio. Até que acabe. Pelo bem da economia.

 

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Por que a RBS presta um desserviço à educação e por que o programa “A educação precisa de respostas” é cínico

novembro 14, 2013

Na primeira vez que ouvi falar do programa publicitário “A educação precisa de respostas”, do grupo RBS, fiquei pensando o quanto isto era cínico. Evitei assistir qualquer reportagem vinculada (assim como evito este canal de comunicação, especialmente o jornalismo político), mas compreendi que programas como este fazem parte das ações de grandes empresas para manter sua imagem vinculada a interesses sociais e éticos, e também a projetos sociais que garantem isenção de impostos. Não é a primeira vez que monopólios de comunicação fazem este tipo de programa, e a própria RBS volta e meia aparece com algum jargão cínico. Portanto, nenhuma surpresa.

Porém, se pensarmos bem e procurarmos exemplos, encontramos casos de cinismo escancarado disfarçado de interesse ético, que na verdade são apenas jogos ideológicos para reforçar as motivações da empresa no imaginário social e ainda ter algum lucro com isso. Exemplo típico do que estou dizendo é o programa “Criança esperança”, da rede Globo: você doa o dinheiro, e a Globo desconta do seu próprio imposto. Na televisão, jingles emocionantes, atores e músicos caricatos da indústria cultural chorando, abraçando crianças carentes, além de reportagens e narrativas de casos de crianças abandonadas que foram salvas pelo programa. Não que o dinheiro nunca chegue: só que nós damos este dinheiro, e a Globo desconta do seu imposto de renda. Indiretamente, estamos tirando dinheiro que iria para o governo (em forma de imposto) para dar para a rede Globo (que ganha desconto deste imposto), e via Globo o dinheiro é repassado (como se fosse doação sua, e assim, gerando o abatimento) para o programa social.

Pois bem, o caso do Criança Esperança já é bem conhecido. A partir daí, então, me pergunto: que tipo de motivação pode haver por trás do programa da RBS? Interesse social pela melhora da educação? Bondade pura? Duvido muito. Incomodado com isto, resolvi escrever as razões pelas quais a RBS, ao lançar um programa que atrela sua imagem ao interesse pelo desenvolvimento da educação, é cínica e hipócrita. Não pretendo me aprofundar nos supostos motivos que a levam a fazer isso (que podem ser caminhos variados para a mesma –sempre a mesma – coisa, isto é, mais dinheiro e mais poder, através da manipulação da opinião pública). Pretendo apenas apresentar alguns breves argumentos de por que a RBS presta um desserviço à educação, e neste ponto dividirei os argumentos em basicamente dois: (1) Por que a RBS colabora com o desmantelamento da educação escolar pública (e por que isto é ruim para a educação escolar em geral); e (2) Por que a RBS presta um desserviço à educação, sendo este último termo aqui entendido em sentido amplo (ou seja, não restrito à educação escolar).

Argumento 1: A educação escolar é apenas um modo de educação que existe, sendo este modo ligado a uma instituição social (escola) que tem determinada função dentro do quadro social. Uma vez que consideremos a escola um momento essencial na formação do cidadão, e um direito (e eu diria ainda também, um dever) universal, de todo cidadão, garantir o acesso de todas as pessoas a escolas de qualidade colabora para a qualificação da cidadania, da sociedade, do trabalho e da vida em geral. Enquanto democrática, a sociedade deve garantir direito a todos, e se educação é um direito básico e deve ser universal, o acesso aos meios de educação (entre eles a escola) não pode ser exclusivamente atrelado à iniciativa privada, pois mesmo quem não tem condições de pagar deve ter o direito de ter acesso à escola. Como no sistema que vivemos mesmo condições de pleno emprego não seriam suficientes para garantir que o sistema, sendo completamente privado, garanta condições das pessoas pagarem por ele (ou seja, a utopia neoliberal é falsa), deve haver um sistema público qualificado de educação escolar que garanta acesso universal.

Sendo assim, podemos deduzir que defender uma educação escolar de qualidade e democrática é buscar garantir que o sistema público se fortaleça (independente de haver ou não oferta de educação escolar no sistema privado). Qualquer um que se oponha ao sistema público se opõe à qualificação e ao acesso à educação e, portanto, não colabora com a mesma. Ora, uma vez que a RBS colabora com o lobby privatista, via manipulação de informações para manipular opinião pública, a RBS colabora com o descrédito das instituições públicas e incentiva a crença de que a privatização é a melhor saída – mesmo que isto acabe tornando o serviço um privilégio de poucos e uma forma de extorsão na mão de quem possuir domínio sobre esse meio. Sendo assim, a RBS presta um desserviço à educação.

Ainda mais, uma vez que a qualificação da escola depende da qualificação da infraestrutura, do sistema e dos funcionários e, uma vez que esta qualificação demanda certo investimento, se colocar contra o investimento necessário é se colocar contra esta qualificação. Se eu quero bons professores, vou procurar pagar bons salários para não perder profissionais qualificados para outros setores. Se pago um mau salário, estou incentivando que: (1) o profissional mais qualificado saia em prol de um salário melhor no sistema privado ou (2) troque de profissão em busca de um salário melhor em outra área. Ou seja: a qualificação do professor (elemento essencial para qualificação do ensino escolar) passa por uma boa oferta de salário. Consequências da miséria salarial dos professores do estado do Rio Grande do Sul são: professores fazendo jornada de 60 horas para poderem se sustentar, sobrando pouco tempo para que possam estudar, se atualizar e preparar com mais cuidado suas aulas, ou ainda muita gente abandonando o seu posto de trabalho em prol de empregos melhores. Sem contar que a falta de estrutura e o abandono geram desestímulo que se perpetua pelo meio. Argumento análogo poderia ser estendido a outros pontos.

Pois bem, segue-se disto que apoiar a qualificação da educação escolar é apoiar mais investimento em escolas, incluindo infraestrutura, investimento em profissionais (como os que a escola não tem, como psicólogos, assistentes sociais, como mais nos que tem – pessoal da limpeza, monitoria, secretaria, pedagogia e professores). A RBS nunca apoiou nenhuma mobilização social em prol da educação e mais investimentos na educação. A RBS sempre se opôs a qualquer manifestação por melhores salários e condições de trabalho por parte dos professores e chega ao ponto de criminalizar as greves, por vezes um dos poucos instrumentos de pressão na mão dos trabalhadores. Ademais, apesar do discurso jornalístico dizer que “precisamos de mais investimentos”, o grupo não é favor de retirar investimentos de outras áreas para a educação: é contra auditoria da dívida pública (o que poderia levar a cessar pagamentos indevidos e também renegociação – fazendo assim que sobrasse mais dinheiro para investir em outras áreas), é a favor da isenção de impostos para grandes empresas se instalarem aqui (estimulando a competição desigual e injusta e também colaborando para que grandes empresas mantenham sua lógica de sugar os governos e os recursos naturais), é contra qualquer aumento de imposto para aumentar investimentos em áreas como saúde e educação, e certamente sempre é contra retirar dinheiro do crédito empresarial ou da área de segurança pública (a única coisa pública que eles gostam) para investimento em educação. Logo, a RBS é contra o aumento do investimento em educação escolar, logo, é contra a melhoria da educação escolar (pois, ainda que se possa fazer sempre melhor uso do dinheiro investido, o que se investe em educação no Brasil é sempre pouco perto do mínimo necessário para que a área funcione como deveria).

Argumento 2: Se educação é algo mais amplo, que está ligado à formação civil, social, intelectual e afetiva dos cidadãos, de forma ampla, então âmbitos relacionados com circulação de informação colaboram com a educação. Assim a mídia assume um papel na educação, e enquanto a mídia é importante, a diversidade e o acesso amplo a informações, o direito ao contraditório, à comparação e à informação mais isenta possível fazem parte da boa educação para uma sociedade democrática. Enquanto a RBS manipula informações em prol dos seus interesses próprios e das empresas que a financiam, enquanto ela continua chantageando os governos (que precisam liberar verbas de publicidade para que ela não use seu poder para acabar com ele diante da opinião pública), enquanto ela se opõe à discussão livre do marco regulatório para democratização e diversificação da mídia (preferindo omitir a verdade e dizer que o marco é uma tentativa de censura, confundindo a opinião pública para manter seu monopólio), ela é contra a qualificação da educação. (Com relação a este último ponto, vale a pena conferir a reportagem do Jornalismo B no seguinte link: http://jornalismob.com/2013/09/10/grupo-rbs-recebeu-417-casas-do-governo-do-estado-em-2012/ )

Sendo assim, se pode concluir que a RBS presta um desserviço à educação e que, fazendo publicidade como se estivesse estimulando a educação, está sendo cínica e hipócrita.

Duas falácias: o ad hominem e a frase “é socialista mas tem um iPhone”

outubro 26, 2013

Duas coisinhas básicas antes de desqualificar seu adversário em um debate:
(1) – Quando você desqualifica o seu adversário por quem ele é ou pelo o que ele faz, você não está refutando seus argumentos. Isto é uma falácia muito comum chamada “ad hominem”. Então, você pode obter sucesso assim em acabar com a reputação de uma pessoa, mas se o seu argumento for válido e montado sobre premissas plausíveis, o argumento dele continua sendo melhor que o seu (que nem é um argumento).
(2) – Um exemplo de ad hominem clássico no Brasil em debates políticos, decorrentes de ignorância sobre temas políticos: alguém com conhecimento mínimo de política e sociologia elabora uma crítica, e um conservador se sente ofendido e, ao invés de analisar as informações e o argumento, resolve partir para o ad hominem. Como a crítica é social, logo é classificada como “socialista” (mesmo quando não é), e por ser “socialista”, surge o ad hominem de que a pessoa que elaborou o argumento não tem autoridade sobre o assunto porque ela é “socialista e usa iPhone”. Isto, além da falácia, designa obviamente uma ignorância política porque confunde socialismo com anti-tecnologia: a linha atualmente mais influente do socialismo é a marxista, e o que ela visa é a superação do capitalismo (ou seja, o pós-capitalismo, e não um retorno a uma condição pré-capitalista ou feudal), através da apropriação do maior número de pessoas dos meios de produção (que inicialmente, por serem caros e escassos, ficam nas mãos de poucos). Portanto, quanto mais tecnologia, melhor, e quanto maior o acesso a ela, melhor, pois maior autonomia as pessoas terão para utilizá-las para produzir, seja bens físicos, informacionais ou virtuais. E neste sentido, o iPhone e tecnologias afins, enquanto tecnologia, colaboram para a disseminação da produção autônoma de conteúdo informacional e virtual. Ao fim, ainda poderia se dizer que é sabido que a Apple e outras grandes corporações se aproveitam de trabalho escravo terceirizado (com consentimento) em mineradoras da África e da América do Sul para obter matéria prima barata e que se utiliza de mão de obra em países que não garantem direitos trabalhistas, como alguns países asiáticos, de maneira que os trabalhadores que montam os produtos recebem mal e trabalham muitas horas. Este último seria um bom argumento para sustentar que uma pessoa que defende o socialismo estaria em contradição ao comprar um produto produzido por via da exploração do trabalho. Mas um liberal também teria este mesmo problema, visto que a teoria clássica do liberalismo preza pelo direito de cada indivíduo de colher os frutos do seu trabalho (pense aqui no trabalhador) e o direito à dignidade humana (teoricamente aqui penso em Locke e Kant, respectivamente). Ainda mais, um socialista sabe que vive num mundo que não é de acordo com a sua utopia, quer lutar para transformá-lo, mas isso não deve exigir dele que não consuma ou não viva dentro do modelo social e econômico no qual está envolvido – ao menos enquanto outra alternativa não existir. Consequentemente, na falta de opção por produtos acessíveis que sejam produzidos com trabalho digno e (de preferência) com a devida distribuição dos riquezas geradas pelos trabalhadores aos próprios trabalhadores, que consumamos o menos pior até que o sistema mude.

Análise lógica e ideológica de discursos e proposições – II

julho 17, 2013

A patricinha vai protestar pelo transporte público, mas volta pra casa de carona com a mãe”.

A falácia aqui consiste no seguinte: existe algo que podemos chamar de contradição pragmática. Este tipo de contradição consiste em que a prática não seja consistente com a teoria, ou simplesmente que não se faça o que se diz. Existem princípios que não podem ser negados. Por exemplo, se não aceito o princípio de não contradição (que algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, ou ser e não ser ao mesmo tempo no mesmo sentido), então não tenho meios para discutir ou o que eu digo não faz sentido. Então quando eu entro em um debate e digo algo como “a planta é verde”, minha postura por si exige que eu esteja comprometido com o princípio de não contradição, pois caso contrário eu posso estar admitindo que quando digo que a planta é verde, eu esteja ao mesmo tempo e no mesmo sentido dizendo também que a planta não é verde. A prática de debates exige isto. Logo, é uma contradição pragmática (ou ainda, performática) que eu esteja debatendo e ao mesmo tempo não aceite o princípio de não contradição. Existem outros casos que podemos simplesmente dizer que não há coerência entre os princípios gerais que uma pessoa segue e suas práticas rotineiras: por exemplo, quando alguém toma como princípio não roubar, e rouba. Ou quando alguém toma como princípio não ser corrupto, e se corrompe. Sobre estes casos podemos simplesmente dizer que uma pessoa mente. Que eu diga que acredito que exista uma parede na minha frente implica que eu não vá tentar atravessá-la como se não houvesse nada diante de mim – caso contrário a minha prática desmente que eu creio naquilo que meu discurso diz que eu creio.

A contradição pragmática pareceria ser o caso que refutaria a atitude da menina que vai ao protesto apoiar a luta pelo transporte público, mas volta para casa de carro. Mas ora, a falácia consiste em quem enxerga a contradição pragmática neste caso: que alguém lute por melhoria no transporte público, não se segue que esta pessoa deva necessariamente utilizar o transporte público. Eu posso muito bem exigir escolas melhores para as crianças e adolescentes, mas já ter terminado a escola e não ter nem pretender ter nenhum filho. Quem enxerga a contradição nestes casos não entende a distinção entre interesse público e interesse privado, e tem problemas em entender que pessoas lutem por ideias de justiça que são comuns a todos. Isso quer dizer: ideias de justiça em situações sociais são sempre pretensões de que o bem seja comum.

Se eu acredito que a educação melhora as pessoas, e as pessoas sendo melhores e mais educadas, o ambiente em que elas vivem (a sociedade) será melhor, então se segue que a educação torna a sociedade melhor. Defender a educação é defender um bem comum. E como o bem comum é também bom para mim, o bem comum engloba também o bem privado. Mas o inverso não ocorre: o bem privado nem sempre está de acordo com o bem comum. Eu posso querer que as escolas públicas fechassem, porque eu sou dono de uma rede de ensino, e acredito que sem escolas públicas eu conseguiria ganhar mais dinheiro. Neste caso não estou visando o bem comum, mas apenas o meu, e ignorando se isto será melhor ou não para a sociedade.
O caso de deslegitimar ou ridicularizar a menina que vai de carona com a mãe para o protesto é um caso de aplicação falaciosa do princípio de contradição pragmática, porque ignora que a motivação por melhoria no transporte público é uma motivação por um bem comum, e confunde-a com a motivação por um bem privado. Mesmo uma pessoa que não anda de ônibus (seja por não sair de casa, seja por usar carro quase sempre) pode ter boas razões para defender um transporte público melhor e mais barato.

Deslegitimar uma postura política por conta de o indivíduo usufruir ou não daquele bem que ela exige é uma falácia. A questão da melhoria dos bens sociais não obriga ninguém a usufruir deles. Existem várias razões para uma pessoa pedir melhoria do transporte: para si e para os outros. Mesmo uma pessoa que ganha carona ou tem carro pode eventualmente precisar de ônibus. Sem contar que com um transporte barato (ou de graça) e eficiente, a sociedade se torna mais justa e os espaços urbanos mais acessíveis. Assim, mesmo aquela pessoa que utiliza carro pode ter maior benefício (ainda que estivesse pensando de maneira egoísta) para encontrar outros amigos que não tem carro, para baratear o custo de certos serviços, etc. Isto pode garantir mobilidade para vários trabalhadores, e por conta do maior acesso ao transporte público isto descongestiona as vias, pois muitas pessoas vão preferir andar de ônibus a gastar com combustível e com estacionamento. De outro modo, também, com melhor transporte público se diminui a necessidade de estacionamentos, fazendo com que os espaços físicos possam ser aproveitados para outros fins que não simplesmente para empilhar carros. Uma situação simples: imagine que você tem um amigo que mora longe, que lá não tem ônibus com frequência e que para ele o ônibus é um custo altíssimo, pois ele pega todos os dias, mas não tem dinheiro para comprar um carro. Tendo um transporte melhor e mais viável economicamente, a possibilidade de você marcar um encontro com este seu amigo em outro lugar na cidade aumenta.

Análise lógica e ideológica de discursos e proposições – I

julho 17, 2013

O socialismo real não deu certo. Logo, devemos abandonar princípios socialistas“. – Proposição que aparece com frequência nos discursos de Valter Nagelstein e Mônica Leal, na busca de deslegitimar os movimentos sociais e a ocupação da câmara de vereadores de Porto Alegre com a alegação de que eles seriam socialistas (o que também pode ser falso – não há univocidade completa de ideário no movimento, assim como as pautas são precisas e independentes deste ideário, apesar de serem motivadas por eles -, mas deixemos isto para outro caso)

Falácias: 1– porque uma situação real não funcionou de acordo com princípios ideais, não significa que tenha lhe esgotado. Existem sempre outras possibilidades de aplicação e manejamento deste princípio.  Não é suficiente um caso particular para excluir todas as possibilidades que uma premissa ou princípio apresenta. A refutação seria válida se eu dissesse “todos os pássaros são verdes” e, com a comprovação de que existem pássaros não verdes (azuis, por exemplo), eu provaria falsa a proposição universal que “todos os pássaros são verdes”. Mas com isto ainda não provo o oposto: que não existe algum pássaro verde. Assim, se eu vejo uma forma de aplicação do princípio socialista que não deu certo, não significa que todos os outros possíveis não darão certo. Eu consigo apenas negar que todas as formas de socialismo sejam boas, mas nunca afirmar (a partir de apenas um caso) que nenhuma é ou será. Do mesmo modo, reduzir qualquer princípio socialista à situação stanlinista na União Soviética: não é porque a União Soviética foi socialista que todo socialismo é a União Soviética. Aqui temos um caso de inversão entre a proposição particular e universal: podemos dizer que “todas as sociedades como a União soviética são socialistas”, mas não podemos dizer que “todas as sociedades socialistas são como a União Soviética”(a visualização do diagrama abaixo pode facilitar a compreensão). Esta falácia tem alto valor retórico, pois consegue confundir os desavisados.

Diagrama

imagem

Falácia 2 – Porque o socialismo não deu certo (com base na falácia 1) ainda se deduz uma outra falácia: logo, nosso sistema é o melhor. Na pior das hipóteses, temos apenas que aperfeiçoá-lo ou torná-lo “mais humano”. (O próprio fato de que busquemos “humanizar” um sistema político, por si só já revela uma percepção imanente a esta intenção: a de que ele não é humano o suficiente. Isto deveria ser critério suficiente não para meramente reformá-lo, mas para transformá-lo em outro). Ou seja, aqui aplicamos o caso do terceiro excluído: Ou A ou não-A. O problema todo é o seguinte: o princípio do terceiro excluído é válido na seguinte situação: de uma proposição se diz ou que é verdadeira ou que é falsa, ou ainda, de uma proposição ou sua afirmação ou sua negação, sem a possibilidade de um terceiro. Ainda que possamos polarizar sistemas sociais (como capitalismo x socialismo), ainda assim essa polarização é muito mais gradual do que meramente uma bifurcação. Portanto, o conceito de socialismo não é idêntico à não-capitalismo. Seria válido dizer ou o socialismo é a melhor forma de organizar a sociedade, ou o não socialismo é a melhor forma de organizar a sociedade. Que seja o não socialismo não se segue que seja o capitalismo, porque existem outras possibilidades de sistemas de organização social (e, ainda que na história ou nas concepções existentes não existissem, ainda é logicamente viável pensá-las, o que torna o raciocínio logicamente falacioso). Ainda, não existe “o socialismo”, mas possibilidades de aplicação de princípios socialistas, possibilidades de organização econômicas socialistas, possibilidades de organização administrativa socialista, possibilidades de formação individual e social socialistas (não, o socialismo, ao contrário do que dizem muitos liberais, não ignora a autodeterminação e a liberdade individual – só não separa o indivíduo do mundo e da sociedade, isto é, ele é formado com e na sociedade, e assim é influenciado pelo meio, e também age nele e deve estar de acordo com ele, assim como o social deve agir a fins de permitir a real liberdade, impedindo a submissão de um indivíduo ao outro por necessidades materiais). Tanto um socialismo quanto um sistema liberal podem ter governos mais autoritários ou menos autoritários, mais democráticos ou menos democráticos. Assim reduzir socialismo a apenas uma das suas possíveis configurações (como os regimes totalitaristas da União Soviética e da Coreia do Norte), é uma falácia que ignora as possibilidades lógicas e reais de gradação de várias formas de socialismo.

O que é a sociedade? Introdução à Sociologia parte I

março 26, 2013

O que é a sociedade? Introdução à Sociologia

parte I

Adriano Kurle

*texto elaborado com função didática para uso no ensino médio

1. O que compartilhamos?

A sociedade é, dito de modo não refletido, o ambiente de convivência dos indivíduos. Mas antes que respondamos de maneira mais adequada a esta questão, deveríamos pensar, a fim de obter uma maior compreensão, na seguinte questão: por que os homens vivem juntos?

Os homens têm diferentes necessidades. De ordem afetiva, de ordem prática e de ordem econômica. Pense em um bebê: para sobreviver ele precisa que alguém o alimente, que alguém o cuide e que alguém o ensine o que ele precisa saber e fazer para sobreviver. Neste sentido o aprendizado e a dependência são os primeiros elementos que nos colocam em contato social.

Repartimos o mesmo espaço físico, como nossa casa, nosso bairro, nossa cidade, nosso país, nosso planeta, com outras pessoas. Criamos vínculos afetivos com algumas, como parentes e amigos, e convivemos com outros por necessidades profissionais, interesses práticos, etc. E nessa convivência encontramos um modo comum de nos comunicarmos e nos entendermos: através da língua, ou linguagem. Estas podem expressar verbalmente ou por imagens e signos escritos o que queremos dizer, através de palavras, números, símbolos. Compartilhamos, portanto, a linguagem e uma determinada língua (no nosso caso, o português).

Em cada ambiente que habitamos temos regras e modos de comportamento, que envolvem atividades, modo de falar, de vestir, enfim, regras ou hábitos que são compartilhados. Compartilhamos, portanto, regras e hábitos, ou comportamentos.

2. As necessidades

Os humanos têm algumas necessidades básicas, necessidades sem as quais eles não sobrevivem: precisam comer, precisam de água, precisam se proteger do frio, da chuva e de perigos como possíveis predadores. Assim, os humanos precisam de alimento, de água, de vestimentas e de abrigo. Portanto, podemos dizer que os humanos têm ao menos três necessidades que são mais básicas que todas as outras: alimentação, vestimenta e moradia.

A sobrevivência exige que os homens busquem meios para se alimentar, para se vestir e para se abrigar. Isto exige que os homens busquem a matéria prima de cada necessidade: a planta, a fruta e a carne para a alimentação; a madeira, a pedra, o barro, para a moradia; a pele, a lã, a fibra, para a vestimenta. E também é necessário que eles trabalhem para transformar cada matéria e suas misturas em artigos que saciem as suas necessidades: precisam cozinhar, construir, tecer. Isto exige que os homens tenham conhecimento sobre o que usar, onde encontrar, como extrair e como transformar.

Em suma, os homens precisam, para saciar suas necessidades básicas, de matéria prima e trabalho. E isto exige conhecimento.

Desfragmentos §1

setembro 4, 2010

Brasil e o brasileirismo

Qual a parte do “filósofo brasileiro” que mais pensa? Questão confusa, predileta de ninguém. Seu Zé Cardoso, famoso sambista do século XIHJ7, chamava Dom João dezessétimo de pastor. Não à toa a própria referência não fazia sentido, apesar de existir e ser pastor. Mas isto, diria o logicista, é plenamente conveniente, caso Dom João dezéssétimo existisse e fosse pastor. Zé Cardoso, com ou sem pandeiro, sequer sabia o que era pastor. Ninguém sabia. Mas Dom João Dezessétimo era pastor. Ser pastor significava apenas ser chamado de pastor, e ser pastor significava apenas uma distinção. Distinção significava apenas um lugar. Ter lugar era um privilégio. Zé Cardoso nunca sabia em qual quintal iria tocar hoje, e se haveria quintal para ele amanhã. Em caso de desespero, sempre procurava Dom João no mesmo lugar. O quintal mudava, mas Dom João continuava pastor.

Que lugar ocupa o “filósofo brasileiro”? Enquanto filósofo, pode ele ser brasileiro, e vice-versa? Um dia um filósofo levantou uma bandeira do Brasil. Ninguém sabia aonde, e foi procurar na Alemanha. O alemão explicou com toda sinceridade, o brasileiro não entendeu, e foi no órgão público reclamar. Ninguém lá sabia o que era reclamar, e apesar de por isto lá estar, mandaram o gerente chamar. O brasileiro perguntou o que era filosofar, esquecendo do Brasil chamar. Salgadinho, cervejinha e pagode no escritório. O Filósofo perguntou: “quem vai atender o telefone?” o silêncio replicou: “quem é filósofo nesta sala?” e quando ninguém atendeu o logicista replicou: “aqui é todo mundo brasileiro”.

Sobre o blog

janeiro 27, 2010

Decidi criar este blog a fim de fomentar escritos, ensaios e ideias que não podem ser devidamente discutidos nem apresentados em meios acadêmicos ou similares. A intenção inicial é publicar artigos e ensaios que sejam relacionados à Filosofia, apesar da possibilidade de abrir algumas exceções a regra. Comentários rotineiros tornar-se-ão ensaios dos mais diversos, sempre a partir de uma perspectiva conceitual. Assim trazer o cotidiano do consumo e do exibicionismo para o campo da sociedade do espetáculo, denunciar, reclamar, fazer ouvir e prestar queixas e contar de acordo com o que convir a cada momento. Não discutir temas empíricos e datados (como “o governo de Lula” ou “A crise econômica”). Posicionar-se não é apenas emitir opinião, e eu não tenho pretensões jornalísticas. Reforço: o blog tem intenções filosóficas ‘não-acadêmicas’.

Para o primeiro post trago um pequeno (nem tão curto) artigo sobre ética, escrito com intenções bastante didáticas. Inicialmente seria publicado em uma revista virtual, de literatura e filosofia. Como a revista não saiu (e nem vai mais sair) resolvo agora publicar o devido artigo neste blog, e que sirva de desculpa para que venham os próximos.

Comentários e colaboradores serão bem vindos.

Ah, para os que gostam de Literatura e tem paciência pra ler os aspirantes:

http://adrianopoesiaetextos.blogspot.com  – poesias e contos