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Políticas identitárias e diferença

setembro 9, 2017

Uma das coisas que me incomoda nos movimentos políticos “identitários” (ou, de formação de identidade de minorias) é que, quando ele se popularizou, esqueceu da sua origem: a diferença. Justamente no nome isso se torna claro: a palavra “identidades”, repetida incessantemente, é uma manifestação clara de um péssimo hábito, a saber, o de reduzir as singularidades aos conceitos gerais “identitários”. Seguindo essa ideia, existem características que definem, por completo, indivíduos. Isso faz parte da sua constituição social, e deve ser um dos únicos elementos considerados. Seguindo a via de um certo fanatismo identitário, um gay não pode ser outra coisa além de gay. Assim como uma mulher é apenas mulher (a não ser que seja mulher e negra, aí ganha espaço em um grupo “privilegiado” dentro da lógica identitária). Então, se você pertence a algum desses grupos, você se reduz a este grupo. Neste caso as diferenças sociais são apagadas: a cultura regional, a classe social, a religião, as ideias etc. Lógico que com isso eu não quero minar a luta por direitos de minorias. Só acho que a discussão política, principalmente na esquerda, tem se reduzido a categorizações simplistas e que, epistemologicamente, fazem violência à realidade. Nenhum indivíduo pode ser reduzido a meia dúzia de características que tem. A diferença e a negatividade imanente a cada sujeito individual é o que lhe faz o que é e nunca pode deixar de ser: um indivíduo.

Por conta disso, as pequenas esquerdas não conseguem agregar a maioria. Se todo gay + todo negro + toda mulher fosse votar no PSOL, a Luciana Genro seria imperatriz do universo. Só que muitos  desses indivíduos são compostos de diversas outras características, que os fazem não se sentir representados pelas lutas identitárias – porque elas são reducionistas (além, penso eu, de serem usadas para ocultar a discussão sobre elementos “comum-a-todos” da política, como questões econômicas e governabilidade).

Junto com o esquecimento da diferença, alguns movimentos identitários parecem traçar também alguns processos de normalização dos indivíduos, apelando para o punitivismo e a “denúncia” daqueles indivíduos que deveriam seguir a imposta “identidade”. Ou uma imposição de condutas aos outros, tidos como “outros” no sentido ontológico do termo (e que, do ponto de vista de pessoas que apelam para a identidade, só podem ser um monstro, porque ele é reduzido à identidade inimiga: o branco, o heterossexual, o homem). Assim se comportam alguns grupos feministas quando querem simplesmente proibir a pornografia, porque por meio disto o “homem” (vamos ignorar que pornografia não é um negócio exclusivo de homens heterossexuais, para seguir a lógica dos identitários) é estimulado a ser violento e se comportar de forma não adequada. Talvez aqui o jogo do ovo e da galinha seja válido (a indústria pornográfica produz filmes dessa e daquela maneira porque seus consumidores já desejam aquilo, ou as pessoas aprendem a desejar aquilo porque a coisa se apresenta daquela forma, configurando o desejo?). Mas não é neste ponto que eu quero entrar. Eu quero falar da restrição do desejo e da fantasia.

Antes de tudo, não quero “legitimar” nenhum tipo de desejo, fantasia ou conduta. Essa perspectiva moralista não ajuda a compreender a coisa. Além de ser ingênuo acreditar que se pode “deslegitimar” o desejo ou a fantasia, porque eles são primievos e escapam do controle social. Talvez o melhor que se possa fazer é aculturar os desejos: e o nome disso é civilização. Acontece, como a psicanálise mostra (e tento fazer uma análise aqui com meus parcos conhecimentos do assunto), que o desejo, enquanto impulso primitivo, não some simplesmente. Enquanto a civilização proíbe, julga, censura, os desejos podem muito bem ser reprimidos. Mas o desejo reprimido pode reaparecer em forma de fantasia. De outro lado, o fato de uma pessoa fantasiar não significa, necessariamente, que ela vá realizar a fantasia. A fantasia traz, por trás de si, uma reaparição recalcada de um desejo reprimido. O próprio sujeito não tem consciência disso, e o “conteúdo”, digamos assim, da fantasia não o traz de maneira explícita. A fantasia, ao menos nesse caso, é o resquício da negação do desejo em forma reelaborada. O desejo é mais forte que a proibição.

O meu ponto é que uma visão conservadora e “punitivista” não entende o problema. Quanto mais se “civiliza” em forma de censura, de “escracho”, de textão de facebook, de multa ou cadeia, mais aquela fantasia se elabora. E mais ela consegue se esconder. O fato de muitas fantasias serem vividas no momento obscuro da privacidade revela muito do ser humano. E o fato de que é justamente no desejo sexual que o ser humano das civilizações contemporâneas mais fantasia talvez demonstre o quão conservadora a nossa sociedade é com relação a isso. Espanta-me muito que movimentos que nascem sob a alcunha do libertarismo se prestem a reproduzir a lógica ultraconservadora (algumas feministas serviriam muito bem como freiras).

Ademais, fica aqui uma questão para pensar: justamente entre os padres (aqueles que não podem transar) que a pedofilia algumas vezes aparece (não somente, mas também). Tanto as crianças como os anjos não tem sexo.

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