Análise lógica e ideológica de discursos e proposições – I

O socialismo real não deu certo. Logo, devemos abandonar princípios socialistas“. – Proposição que aparece com frequência nos discursos de Valter Nagelstein e Mônica Leal, na busca de deslegitimar os movimentos sociais e a ocupação da câmara de vereadores de Porto Alegre com a alegação de que eles seriam socialistas (o que também pode ser falso – não há univocidade completa de ideário no movimento, assim como as pautas são precisas e independentes deste ideário, apesar de serem motivadas por eles -, mas deixemos isto para outro caso)

Falácias: 1– porque uma situação real não funcionou de acordo com princípios ideais, não significa que tenha lhe esgotado. Existem sempre outras possibilidades de aplicação e manejamento deste princípio.  Não é suficiente um caso particular para excluir todas as possibilidades que uma premissa ou princípio apresenta. A refutação seria válida se eu dissesse “todos os pássaros são verdes” e, com a comprovação de que existem pássaros não verdes (azuis, por exemplo), eu provaria falsa a proposição universal que “todos os pássaros são verdes”. Mas com isto ainda não provo o oposto: que não existe algum pássaro verde. Assim, se eu vejo uma forma de aplicação do princípio socialista que não deu certo, não significa que todos os outros possíveis não darão certo. Eu consigo apenas negar que todas as formas de socialismo sejam boas, mas nunca afirmar (a partir de apenas um caso) que nenhuma é ou será. Do mesmo modo, reduzir qualquer princípio socialista à situação stanlinista na União Soviética: não é porque a União Soviética foi socialista que todo socialismo é a União Soviética. Aqui temos um caso de inversão entre a proposição particular e universal: podemos dizer que “todas as sociedades como a União soviética são socialistas”, mas não podemos dizer que “todas as sociedades socialistas são como a União Soviética”(a visualização do diagrama abaixo pode facilitar a compreensão). Esta falácia tem alto valor retórico, pois consegue confundir os desavisados.

Diagrama

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Falácia 2 – Porque o socialismo não deu certo (com base na falácia 1) ainda se deduz uma outra falácia: logo, nosso sistema é o melhor. Na pior das hipóteses, temos apenas que aperfeiçoá-lo ou torná-lo “mais humano”. (O próprio fato de que busquemos “humanizar” um sistema político, por si só já revela uma percepção imanente a esta intenção: a de que ele não é humano o suficiente. Isto deveria ser critério suficiente não para meramente reformá-lo, mas para transformá-lo em outro). Ou seja, aqui aplicamos o caso do terceiro excluído: Ou A ou não-A. O problema todo é o seguinte: o princípio do terceiro excluído é válido na seguinte situação: de uma proposição se diz ou que é verdadeira ou que é falsa, ou ainda, de uma proposição ou sua afirmação ou sua negação, sem a possibilidade de um terceiro. Ainda que possamos polarizar sistemas sociais (como capitalismo x socialismo), ainda assim essa polarização é muito mais gradual do que meramente uma bifurcação. Portanto, o conceito de socialismo não é idêntico à não-capitalismo. Seria válido dizer ou o socialismo é a melhor forma de organizar a sociedade, ou o não socialismo é a melhor forma de organizar a sociedade. Que seja o não socialismo não se segue que seja o capitalismo, porque existem outras possibilidades de sistemas de organização social (e, ainda que na história ou nas concepções existentes não existissem, ainda é logicamente viável pensá-las, o que torna o raciocínio logicamente falacioso). Ainda, não existe “o socialismo”, mas possibilidades de aplicação de princípios socialistas, possibilidades de organização econômicas socialistas, possibilidades de organização administrativa socialista, possibilidades de formação individual e social socialistas (não, o socialismo, ao contrário do que dizem muitos liberais, não ignora a autodeterminação e a liberdade individual – só não separa o indivíduo do mundo e da sociedade, isto é, ele é formado com e na sociedade, e assim é influenciado pelo meio, e também age nele e deve estar de acordo com ele, assim como o social deve agir a fins de permitir a real liberdade, impedindo a submissão de um indivíduo ao outro por necessidades materiais). Tanto um socialismo quanto um sistema liberal podem ter governos mais autoritários ou menos autoritários, mais democráticos ou menos democráticos. Assim reduzir socialismo a apenas uma das suas possíveis configurações (como os regimes totalitaristas da União Soviética e da Coreia do Norte), é uma falácia que ignora as possibilidades lógicas e reais de gradação de várias formas de socialismo.

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