Os protestos e o lobby automobilístico

Antes de dizer que o protesto é o “povo acordando” ou outras artimanhas da direita brasileira (como transformar os manifestos em “indignação com o PT” ou “reflexo da inflação” – eles, que na verdade tem apenas inveja do PT, mas certamente sabem que o PT apenas ocupa o lugar deles, fazendo a mesma política do PSDB), temos de lembrar: há tempos existem grupos organizados, que se encontram periodicamente e que participavam dos protestos quando eles tinham 200, 100 pessoas. É errada a ideia de que os protestos surgiram do nada. Assim como é errado pensar que eles não têm uma demanda específica. Vamos analisar a situação em Porto Alegre, um pouco do que tenho acompanhado nos jornais, via internet ou em participação direta nos manifestos e ocupações dos espaços públicos. Não pretendo falar por ninguém aqui, apenas fazer uma análise de alguns elementos que parecem estar sendo esquecidos:

Parte dos protestos estão relacionados em um ponto comum. Grupos se manifestam em prol da ocupação dos espaços públicos em Porto Alegre, como praças, gasômetro, largo Glênio Peres, entre outros. Em parte destes lugares há projetos ou intenções de transformá-los em estacionamentos. Há o grupo de ciclistas Massa Crítica, que com frequência ocupam as ruas em grupo em passeios ciclísticos e manifestos contra a ditadura dos automóveis. Há também manifestações contra o corte das árvores. Este corte está sendo feito (já foi feito) para ampliar vias e ruas – obviamente, não as calçadas. Por fim, o protesto que obteve maior sucesso: pela redução da passagem e pela melhoria no transporte público. Pois o que estas demandas (que têm muitas vezes os mesmos grupos como protagonistas) têm em comum? Está óbvio: elas lutam contra um modelo de configuração urbana que retira os espaços das pessoas para caminhar, se reunir, confraternizar, em prol de mais espaços para carro. Ou seja, a questão aqui (apesar de não ser tocada) tem também a ver com a indústria automobilística e petrolífera.

Nossas cidades ficam cada vez maiores, e os espaços cada vez mais longos. Assim, as pessoas precisam de transporte. Como o transporte público é ruim, caro e demorado, as pessoas compram carros. O transporte público fica mais caro, o lucro dos empresários das empresas é cada vez maior (da-lhe subsídio quando o custo fica alto, planilhas manipuladas e investimentos superfaturados), e ao mesmo tempo há incentivo massivo para compra de carros: juros mais baixos, IPI reduzido, propaganda massiva, além do suporte ideológico que faz as pessoas acreditarem que ter um carro é ter poder, é ter liberdade, e que andar de ônibus é coisa de aleijado ou de pobre. Consequência: trânsito cada vez mais lotado – mais poluição sonora, mais poluição do ar, brigas e stress no trânsito, viagens demoradas. Solução? Construir mais vias, aumentar as avenidas. Assim, mais carros cabem no trânsito. E assim também aquilo que ficava mais pertinho, tem que mudar de lugar, e ir pra um pouco mais longe, pra dar lugar para as avenidas. A longo prazo a repetição cíclica: mais estradas, mais carros, mais longe as coisas ficam, mais necessidade de carro, mais vias, mais longe as coisas ficam.

Esta lógica a princípio parece muito burra. Ora, por que não investir em transporte público, pra ter menos carros ocupando espaço nas ruas? Por que não estruturar a zona urbana de outra maneira, que seja mais limpa, mais silenciosa, mais saudável? Por que não bicicletas, skates, patinetes ou simplesmente nossas pernas? Mas quanto mais carro, mais gasolina. Quem ganha? As indústrias automobilísticas e petrolíferas. Não é a toa que os governos cada vez mais sucumbem a estes incentivos, gastando dinheiro público para dar lucro para essas empresas. Elas investem forte em lobby, em propaganda e em lavagem cerebral.

Com certeza o aumento dos protestos não se reduz a isto: são muito mais. São indignações contra a maneira como nosso dinheiro é usado, contra o descaso público com o que é público, é também um grito (dado a nível mundial nos Estados Unidos em movimentos Occupy, nos protestos na Espanha, Portugal, Grécia, Itália, na Turquia, na dita “primavera árabe” – melhor dizendo, africana – na Síria, na Tunísia, na Líbia, os movimentos estudantis no Chile, entre outros) contra o fracasso da democracia representativa. Não é incomum os dizeres “não me representa” contra os governos aparecerem nesses manifestos. O povo quer participar diretamente. Quer democracia direta, não representativa.

Mas não podemos ignorar o que há por trás de muitos dos problemas que nos incomodam: lobby de empresas transnacionais nos nossos governos, e dinheiro deles investido para comprar a mídia, em propaganda massiva e na criação de ideologias para além do simples incentivo ao consumo. A ideologia do carro faz acreditar que pessoas não vivem sem carro. Mais do que incentivar a usar carros, nos faz crer que não existimos sem carro, que um automóvel determina nosso valor. E esse grito que até então estava engasgado deve ser esclarecido aos poucos. Uma parte dele diz: cansamos da indústria automobilística e petrolífera. Não queremos ser carros: queremos a cidade para nós.

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