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O ídolo como projeção

agosto 18, 2012

*Este artigo deve fazer parte de um ensaio um pouco mais amplo, que busca relacionar o fenômeno da idolatria no âmbito religioso com o poder político e, assim, compreendê-lo como ferramenta social. Mais adiante, pretendo refletir especulativamente (portanto, sem apego acadêmico) a transformação da idolatria no âmbito da laicização e a relação entre idolatria e submissão na indústria cultural.
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O que é a idolatria e que relação ela tem com a submissão? De outro lado, o que é a submissão, e porque faria sentido fazer uma conexão direta entre submissão e idolatria? Este termo parece muito mais ligado a crenças, atitudes e cerimônias religiosas. A corporificação imaginária de forças naturais ou desejos e perspectivas humanas em “ídolos”, representações mesmas de “coisas” ou “pessoas” que possuem o arbítrio sobre aquilo que se deseja ou simplesmente sobre aquilo que não se tem domínio: desde a chuva até a imortalidade.

Nem mesmo o mais tosco ritual prescinde de um fundo, de uma terra própria para o ídolo. A concepção do poder corporificado envolve a possibilidade deste ídolo realizar o seu poder em um âmbito que esteja fora daquele presenciado, para além do que se pode presenciar ou para além do presenciável. O ídolo tem a sua morada e a sua presença em um ambiente que admite regras que estão fora do escopo humano justamente por estarem fora do seu poder. Mas é na sublimação da ação fisiológica que buscaria realizar o irrealizável que a imaginação recria o ímpeto fisiológico em simbologia e significação conceitual: a impossibilidade de, com os meios atuais, realizar a força do desejo, gera um impulso para dentro que resignifica o impulso, tornando-o simbolicamente parte do mundo, isto é, não mais impulso do sujeito, mas evento próprio objetivado no próprio mundo (não mais ação, mas representação). É a partir daí que a projeção de um novo mundo é ação possível, onde o que antes era realização bruta do impulso fisiológico torna-se mediado pelo signo, que organiza e delimita seu campo de atuação reinterpretando o próprio ambiente e introduzindo a substantivação do abstrato. Isto é, aquilo que tem o seu valor apenas relacional (como conceitos, forças físicas, relações políticas) é simbolizado como coisa.

Por último, a crença de que a coisa é no mundo, porém está oculta. O que era relação se torna objeto sensível não passível de apreensão sensível. A realização bruta do simbólico substantivado (isto é, como coisa) só pode ser feita em uma constante afirmação e reafirmação da sua existência, em crenças compartilhadas que geram por fim a constante afirmação da presença do não presenciável. É no âmago do desejo resignificado e projetado como ritual e culto que a relação simbólica se solidifica em coisa, diante da projeção humana de uma ilusão, que em última instância está apoiada no seu projeto irracional de manifestação da sua força projetada pelo desejo.

E surgem as formas de dominação da natureza, organizadas já em ritos sociais que tem funções sociais de controlar a esperança, de tomar controle daquilo que está fora mediante uma simbolização do que não pode ser apreendido com o corpo. Se um determinado ritual que demanda chuva para um determinado ídolo manifesta, ao mesmo tempo, o desejo humano da chuva e a impossibilidade dele, como homem, fazer chover, e de outro lado também a corporificação de uma projeção do homem de uma força que, possuindo um poder tão arbitrário quanto o humano e o desejo de realizar, então a realização do desejo (como chuva) depende da força daquele que agora foi projetado para ter força sobre o imponderável.

A força de fazer chover é dada como um alvará ao ídolo humano. As forças conjuntas de todos os homens que repartem o ritual surge como a soma de forças que deveria legitimar e autenticar a sua existência. No caso do ídolo não realizar a sua tarefa, é porque ele, como projeção humana, tem humores e desejos humanos, e está insatisfeito, ou simplesmente acreditou melhor castigá-los. A projeção do ídolo é a objetificação do antropocentrismo – este ídolo representa o grupo e não o mundo inteiro. Ele está para aqueles que acreditam nele, que o alimentam no ritual, e não como uma ordem indiferente que regula o mundo de modo justo, de acordo com o valor de cada uma das partes. O grupo y tem seu ídolo z, que é o poder manifestado contra ou a favor do grupo y, mas nunca sem nenhuma relação ou preocupação com o grupo x, principalmente se o grupo x não compartilhe da crença ou do conhecimento da existência da crença em um ídolo z.

O ídolo, porém, como projeção, depende do ritual. E o ritual depende de uma ordem do próprio ritual. Enquanto as “condições transcendentais”, isto é, as regras que regulam o funcionamento do ídolo mesmo na projeção e sua atuação, são dependentes do âmbito projetado, o ritual como elemento de comunicação com a projeção tem suas regras imanentes. A regra do ritual não é a mesma da projeção, e em muitos aspectos se obriga a criação ligada ao que está encarnado, ao que é físico, pois é neste âmbito que é necessário colocar ordem. O ritual deve ter uma ordem, para afetar a ordem projetada para que esta ordem projetada, por sua vez, imponha seu poder para realizar a ordem do terrestre, imanente.

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