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10 elementos de uma sociedade despolitizada

dezembro 23, 2011

1 – Perda ou confusão do significado de conceitos políticos fundamentais. Não se distingue mais entre aristocracia e democracia, entre monarquia e ditadura. O próprio termo “política” tem seu significado esvaziado. Desta maneira, o discurso sobre política nunca se torna claro e publicamente compreensível, se perdem os meios para a comunicação pública.

2 – Infiltram-se e se estimulam os hábitos de barrar e reprimir manifestações políticas. As modas, o “cool”, é sempre evitar a política. Manifestações quaisquer sobre política são rechaçados, não apenas protestos publicamente organizados. O tema da política fica fora do escopo dos temas rotineiros. A política é estrangeira da rotina.

3 – Monopólio da informação nas mãos de agentes ideológicos tendenciosos, e que  buscam passar a ideia de “neutralidade”. A informação vêm mastigada e é construída de maneira tendenciosa, para que se forme uma opinião pública de acordo com o que se pretende ideologicamente. Apenas duas escolhas são respeitadas: a concordância ou a indiferença.

4 – Mecanismos de distração. A supervalorização de imagens sem significação, e o incentivo de usufruir de passatempos que evitam tocar o tema político. Uma imagem ou um vídeo chamam mais atenção e ocupam mais espaço que um discurso ou um texto. A argumentação passa a ser considerada algo tedioso, e quem busca entediar ao invés de distrair é desconsiderado socialmente, é evitado.

5 – Toda crítica política é considerada uma ofensa pessoal. A crítica da cultura é considerada invasão de privacidade. Os hábitos culturais são considerados “escolhas”, e geralmente se evita buscar suas origens e causas. Cada um escolhe o que quer ser, como se fazer opções culturais sem ter consciência e domínio dos meios que lhe dão origem fosse possível.

6 – Nivelação cultural. Torna-se proibido criticar hábitos culturais comuns. O que existe é considerado correto e normal simplesmente por existir. Qualquer tentativa de mudança ou crítica é tachada como moralismo, como excesso. Da mesma maneira, os hábitos diferentes são altamente isolados, evitados. Os hábitos são desvalorizados, no sentido de não possuírem mais valor. Tanto faz ser letrado ou iletrado, ser corrupto ou honesto. O relativismo do “cada um faz o que quer da sua vida”, confundindo o papel público da pessoa e seus deveres enquanto agente social com o direito de privacidade. O que é de valor público passa a ter valor privado e é relativizado.

7 – Valorização pública do prazer. As pessoas passam a ter estima social de acordo com os prazeres pessoais que ela publicamente manifesta. Gostar de sexo, de bebida, de correr de carro, de consumir banalidades, é tido como elemento de valoração de estatuto social. O prazer privado passa a ter valor público e é hierarquizado de acordo com regras de valoração social do prazer. O valor de uma pessoa é medido de acordo com o número de viagens que já fez, de carros que tem ou já teve, de filmes que já viu, de pessoas com quem transou.

8 – A fonte de estímulo da formação dos hábitos é ocultada. Os hábitos formados socialmente passam a ser considerados herança genética. Como se o ser humano nascesse com um rolo de papel higiênico na mão.

9 – Confunde-se política com representação administrativa. As pessoas passam a achar que política é apenas o que envolve relações com atividades dos ditos “políticos”. A convivência social, a linguagem, os hábitos e a relação com normas, manifestações de poder, tudo passa a ser despolitizado de maneira a ser considerada “privacidade”, e parecer que tudo que envolve política, no sentido lato do termo – que é absolutamente tudo que está envolvido nas relações sociais, portanto, quase tudo – seja considerada mera opção pessoal e privada, impassível de crítica. Toda crítica cultural é considerada uma invasão de privacidade. Invasão de privacidade é considerado algo a ser evitado, a única norma. Como os temas culturais e políticos são tomados como meras opções pessoais, a possibilidade de abertura para a crítica e mudança é fechada. No momento que se proíbe a invasão da privacidade, e que o que é de caráter social passa a ser considerado mera escolha privada, se impossibilita a crítica política e cultural.

10 – Estímulo à fuga da responsabilidade. Troca-se responsabilidade por consumo e prazer. Ao invés do estímulo à conscientização do papel de cada um, das consequências sociais de seus hábitos e do seu papel na sociedade, se estimulam os meios de distração. Pessoas não são consideradas cidadãs, mas corpos privados que tem como único fim a busca da alegria, que se confunde com felicidade.

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