Archive for setembro \26\UTC 2010

Ética com seres sencientes e animais

setembro 26, 2010

Um tema em pauta na ética contemporânea é o tratamento que devemos (ou não devemos) dar aos animais. O tema gera disputas e variadas posições são tomadas. Porém, como é comum no debate sobre ética, é muito difícil pautar uma posição sobre princípios sólidos e firmes. A argumentação, qualquer que seja, sempre deixa espaço para o contra-argumento. Apesar disto nunca vi alguém que, sendo racional em seu juízo e piedoso em seu sentimento, não aceitasse este princípio: é errado maltratar animais ou qualquer ser senciente sem necessidade. Evidentemente esta proposição pauta-se pela compreensão do que significa dor e sofrimento. Uma criança, ou até mesmo um animal, quando incapazes de transportar a sua capacidade de sentir dor para outro, podem causar dor ou matar sem preocupação. É apenas pelo transporte da imaginação que chegamos à alteridade. A dor pode ser sentida no outro através do transporte que a imaginação faz ao compreender a dor do outro como uma possibilidade de ser minha. Porém a compreensão da dor pode ocorrer de imediato, parece que ás vezes sem a mediação da imaginação. Um grito de dor humano, uma expressão física ou facial – e imediatamente sabemos, sem gerar nenhuma proposição ou cognição mental, apenas um sentimento imediato que traz a pena ou a repugnância… ali, naquele gemido, naquela expressão, há dor. Quando uma criança mata uma borboleta, ou quando um gato mata um pássaro ou um rato, não há compreensão mediata nem imediata da dor. Ambos o fazem inocentemente, por diversão, nem sempre há crueldade. Mas é inadmissível que um ser com plena razão desenvolvida, ainda que no momento incapaz de percepção imediata da dor alheia, não o faça através da mediação da imaginação e da razão. Por isso é imperdoável quando alguém bem formado, adulto, e com plena saúde das suas faculdades cognitivas, maltrata um ser senciente sem necessidade. O nome disto é crueldade.

A dor é a metafísica da ética. A dor nos paralisa, a dor nos transporta para fora, faz parecer toda a existência uma única e mesma coisa, que não tem outro nome senão “dor”. Quando há dor, existir é dor. Há um momento que a própria identidade transborda, quando a dor ultrapassa todos os limites e traz consigo a unidade universal dela mesma: a existência é toda dor. O tempo pára. Apenas a dor é infinita. Não a toa, a entrada do mundo ético cristão tem o sofrimento como sua porta. É absolutamente compreensível. A dor nos torna indiferentes: não porque não nos importamos com ela, mas justamente ao contrário – toda dor é a mesma dor. Não há diferença entre aqueles que sentem dor. O nível de dor pode mudar, mas a dor, por si só, é apenas dor. A dor é a mesma na formiga, na planta, no macaco, no homem, na mulher.  Aceitamos, através disto, que causar dor a outro é equivalente a causar dor a nós mesmos. A dor é necessária e inevitável em muitas situações (é a sua inevitabilidade que traz esta unidade universal entre todos os singulares), enquanto possibilidade ela é sempre presente (nunca a dor é impossível), mas em situações particulares ela é passível de ser evitada. E deve-se evitar no outro ser senciente a dor. A isto refere-se a sentença “É errado causar dor a seres sencientes sem necessidade”. A dor é um fato. O dever não é nunca um fato. Da dor não podemos deduzir diretamente uma ação ou um dever. Esta sentença apenas é correta para aqueles que aceitam que “se deve fazer o bem” e que “causar dor não é um bem”, de onde se deduz que “não se deve causar dor”. Porém o conteúdo das normas exige a compreensão de um fato: a dor deve ser compreendida. A dor só pode ser compreendida pela experiência e memória da dor.

O que vem a gerar disputa, porém, é o que se pode considerar necessário. Matar animais para alimentação, para alguns não é considerado anti-ético – alimentação e cadeia alimentar são necessidade. Para outros, comer animais fere o princípio – é incorreto. Dizem eles que deveríamos comer apenas verduras, legumes, ervas, frutas. Alguns aceitam derivados de animais, outros não (o ovo é já um pinto em potencial – discussão esta semelhante a questão do aborto, em termos). Não ponho em questão aquelas escolhas alimentares que são relacionadas à própria saúde, mas apenas aquela que leva em consideração o dever com relação ao outro – animal, planta etc. Esta lógica coloca o animal como o ser senciente acima dos outros: muitos não comem carne porque acham errado matar animais para se alimentar – é desnecessário. Muitos destes, sem perceber, exterminam baratas, formigas e mosquitos- quantas vezes sem necessidade? Aqui o debate fica mais intenso. Para se defender que comer animais é errado, mas plantas não, deve-se aceitar uma ética pautada em uma hierarquia – humanos valem mais, depois deles os animais, por último os vegetais. Ainda se pode discutir se as plantas são sencientes – este debate ainda não foi ampliado, apesar de existirem algumas pesquisas sobre o tema. É evidente que a forma de sensação que a planta tem é diferente da de animais. Mas elas possivelmente o tem. O simples crescimento de um organismo mostra que ele, internamente, processa dados (no sentido mais amplo que “processamento de dados” pode ter). Outros colocam uma hierarquia ética pautada no “racional”: ético é todo aquele que é racional, o resto está fora. Assim, seres humanos e qualquer possível racional não humano fazem parte de um mundo ético, os outros fora. Bem, esta hierarquia é um tanto problemática. Nossa conduta ética sempre nos impõe dilemas, muitas vezes aporias. Não acredito que seja errado alimentar-se de animais, acho errado causar-lhes sofrimento em vida, tratar como se fossem apenas pedaços de carne. Ainda assim o sistema sustenta nossos hábitos: é por vezes impossível escolher entre comer uma galinha caipira ou uma galinha mal tratada em uma granja industrial, porque a galinha caipira simplesmente não está disponível para “consumo”. Assim a questão é comer ou não a galinha. Se plantas também sentem dor, pressentem o sofrimento e a morte, então, se não devemos comer animais, devemos comer plantas?

A questão não se esgota tão facilmente. Minha intenção é apenas colocar a questão, de forma introdutória.

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Desfragmentos §2

setembro 5, 2010

O ser humano e sua falsa diferença específica

Temos ainda o hábito de classificar conceitos pelo pensar propriedades universais em um singular referenciado no espaço. Hábito empirista, reducionista. O homem é um animal, mas não é qualquer animal: para que se possa especificar o conceito ele deve ter a sua “diferença específica” (nosso vício aristotélico) – racional. A definição “animal racional” seria suficiente caso fosse possível acreditar que o termo “animal” conota propriedades válidas para toda extensão dos entes denotados por este termo. Assim o agir, o hábito, as características físicas, o habitat de todos os entes denotados por “animal” é suprimida em sua diferença, e apenas aí a especificidade do termo ‘racional’ pode fazer sentido. São ignoradas todas as especificidades possíveis que diferenciariam um possível ‘pensar’ em animais, colocando todos os animais sob o rótulo estúpido de um “irracional”, pois apenas nas diferenças específicas no agir que se poderia apreender as possíveis maneiras de pensar de cada “animal” específico, e encontrar assim suas diferentes formas de algo que poderia ser pensado como racionalidade. Porém antes de definir bem os termos, já é dada a definição, e apenas depois se busca os meios de justificá-la: o homem é O animal racional, porque ele entende apenas a ele mesmo, e como ele já se põe como O racional, qualquer forma de incompreensão que ele tenha com outro ente é determinado como irracionalidade. Como a incompreensão deve vir da parte do irracional, e o homem é que é já posto como o racional, a definição por diferença específica obriga a colocar a sua incompreensão, logo o rótulo da irracionalidade, sobre aquilo que na verdade ele (o homem) não compreende. O “irracional” é tudo aquilo que sua limitada concepção de racional não compreende. Bem, é apenas neste pôr da diferença específica por uma ordem invertida (e a diferença apenas no lugar que se intenta pôr, enquanto do outro lado se encontra apenas o ignorar desta mesma diferença) que é possível aceitar a definição do homem como O animal racional. Desta racionalidade deveria derivar um agir “moral”, uma constância nos costumes orientada pela racionalidade. É apenas com base nesta crença que tomamos uma metáfora, tal como a seguir, por uma ofensa: “Brasileiro é igual macaco”. Isto quer dizer que ele não atingiu sua “humanidade”, e por isto seria ainda um animal. Mas o animal tem sua diferença específica também do homem, e o macaco tem sua diferença específica dos outros animais. O homem, porém, não tendo sua “racionalidade humana”, ainda assim nem por isso seria igual a um macaco: seria bem menos. O macaco mantém ainda algo que o homem não humanizado não tem: sua macaquez. No que ela consiste, os homens não animalizados ainda não puderam macaquizar. Que isto sirva de prelúdio apenas para dizer que, quando dizemos que ‘brasileiro é igual macaco’, não estamos sendo justos com os macacos.

Desfragmentos §1

setembro 4, 2010

Brasil e o brasileirismo

Qual a parte do “filósofo brasileiro” que mais pensa? Questão confusa, predileta de ninguém. Seu Zé Cardoso, famoso sambista do século XIHJ7, chamava Dom João dezessétimo de pastor. Não à toa a própria referência não fazia sentido, apesar de existir e ser pastor. Mas isto, diria o logicista, é plenamente conveniente, caso Dom João dezéssétimo existisse e fosse pastor. Zé Cardoso, com ou sem pandeiro, sequer sabia o que era pastor. Ninguém sabia. Mas Dom João Dezessétimo era pastor. Ser pastor significava apenas ser chamado de pastor, e ser pastor significava apenas uma distinção. Distinção significava apenas um lugar. Ter lugar era um privilégio. Zé Cardoso nunca sabia em qual quintal iria tocar hoje, e se haveria quintal para ele amanhã. Em caso de desespero, sempre procurava Dom João no mesmo lugar. O quintal mudava, mas Dom João continuava pastor.

Que lugar ocupa o “filósofo brasileiro”? Enquanto filósofo, pode ele ser brasileiro, e vice-versa? Um dia um filósofo levantou uma bandeira do Brasil. Ninguém sabia aonde, e foi procurar na Alemanha. O alemão explicou com toda sinceridade, o brasileiro não entendeu, e foi no órgão público reclamar. Ninguém lá sabia o que era reclamar, e apesar de por isto lá estar, mandaram o gerente chamar. O brasileiro perguntou o que era filosofar, esquecendo do Brasil chamar. Salgadinho, cervejinha e pagode no escritório. O Filósofo perguntou: “quem vai atender o telefone?” o silêncio replicou: “quem é filósofo nesta sala?” e quando ninguém atendeu o logicista replicou: “aqui é todo mundo brasileiro”.