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Ensaio sobre a mentira – parte 1

abril 1, 2010

1 – A FACE DA MENTIRA

A mentira transparece na dissimulação, mas sempre escapa em um momento de distração: são nos atos falhos que a verdade aparece em um lapso de segundo, e é apenas a partir desta faísca rápida e evanescente que podemos a incendiar. Nada como uma completa destruição, uma labareda que esfumaça por si tudo aquilo que não pode ser corporificado: a mentira não-é (por si, é não-estática), ela é um efêmero flutuar que não pode ser apreendido em lugar nenhum; não tem fixidez e cambia de um lado para outro, fugindo sempre de seu centro. A ilusão é imposta de um ponto marginal: vem de fora e aflige o que lhe recebe, é infinitamente criativa. A mentira é a pura criação, seria infinita em suas possibilidades – sua infinitude seria plena caso não houvesse apenas uma limitação para ela: a negação imposta pela lógica a todas as possibilidades de criar o engano, de mentir – a verdade de que ela é já, dentre todas as suas possibilidades, falsa. É, porém, justamente deste ponto que ela retira sua existência e é a partir dela (aonde ela [mentira] é nada) que cria a si mesma.

A primeira exigência da mentira é a vítima. Não é possível haver nenhuma mentira sem que se possa haver um ponto de crença: ou seja, a consciência (esta que crê), o sujeito que é vitimado pelos olhos dos outros[1] (sabe menos de si mesmo do que qualquer outro). Deve-se levar em consideração que o contexto e suas relações é que devem ser conhecidas para que cada coisa esteja em seu lugar, ou seja posta nele. Assim o saber do sujeito de si mesmo é em verdade o saber do seu lugar, das suas relações e dos diferentes objetos e consciências para com ele. Saber o seu lugar é encontrar o chão em que pisa. Aquele que é enganado aprende apenas a flutuar, porém suas asas são controladas por um mecanismo da qual não tem posse: a manipulação ou é automática ou é feita por outro.

Outra importante observação é que nenhuma ilusão surge por si só (mas apenas na dissimulação da relação, no véu que é posto diante daquilo que quer aparecer) e o engano nunca ocorre apenas dentro de uma vítima: o verdadeiro engano criado, a mentira humana, é criado e ativado como um crime: tem ele seu protagonista, assim como seus devidos cúmplices e testemunhas. Todo cúmplice é desde então o próprio criminoso, pois a partir do funcionamento do automatismo da estrutura, não há mais a necessidade do criador, e aquele que a reproduz ou não se lhe opõe é já culpado por sua continuação. Mas não parece tão fácil distinguir quem é autor do ato, quem é vítima, cúmplice ou testemunha. Quando a mentira flutua metamorfosicamente ela não consegue ser captada. Sua pós-criação já lhe dá autonomia, e quando se relaciona com as suas diversas captações ela já é a vida de uma praga.

Ela é sempre manifestada em dissimulação, seja na tentativa de enganar o outro sobre a mentira que tenta impor-se já como uma outra mentira (que tem origem na primeira e é recriada pela intenção de se realizar sem se expor), seja na auto-dissimulação que tenta colocar a mentira para si mesmo como verdade, e espalha-se crente de ser verdade: tenta impor ao outro sua verdade (que é já auto-dissimulação). A segunda pode encontrar-se por trás da primeira. Na tentativa de enganar o outro sobre algo que é já mentira esconde-se sempre uma tentativa de realizar algo que pretende ser dominação, e acredita-se manter domínio pleno do contexto através da imposição desta mentira na consciência alheia, fazendo todo agir tender a esta intenção inicial e justificando a mentira através da sua metamorfose que sempre apóia-se em algo que em princípio pode ser aceito pelo(s) outro(s) como uma verdade já dada como “bem”. Explicitar a justificação da manipulação como uma tentativa de realizar o bem é a típica manifestação da auto-dissimulação. A mentira é sempre o ponto de partida de uma tentativa de manipulação, seja na tentativa de justificar seu auto engano a partir da repartição do mesmo (ou seja, reparti-la- com outras pessoas- e torná-la independente da sua origem) ou na tentativa de criar uma nova para que através da manipulação instrumental dos atos alheios e da construção de um contexto ela possa realizar-se por trás dela. Neste último caso temos uma mentira oculta que busca realizar-se com uma metamorfose como se fosse outra, buscando que essa segunda mentira estruture as condições para que ela possa se realizar sem ter que se expor diretamente.

Por fundo, a mentira primeira (a auto dissimulação, a que se acredita como verdade) é a ilusão de que colocando esta crença como verdade as coisas podem se adequar a elas. A natureza mentida é ciência. O amor mentido é família. Nas consciências e no Ethos humano ela tem seu sucesso instrumental muito maior do que na natureza, porém nesta segunda ela se enraíza de uma maneira muito mais forte, tanto que tudo que parece dominação (a manipulação da natureza pelo uso dos instrumentos criados com fim de modificá-la) esconde por trás de si tudo que sobra e falta a esta mentira, e o ver da falta de sucesso desta imposição é cegada pela crença na manipulação (por isso mentira, e a manifestação da sua força é expressa na crença de que tudo isto é progresso e que seus problemas nada são ou não devem ser vistos).

Justamente por isso toda leitura dos “fatos”, sejam de objetos empíricos ou de “eventos” históricos ou sociais é dificultada e torna-se sempre recriação, a partir de uma desconstrução realizada sempre por meio da crítica que visa apreender alguma lógica de transformação desta mentira, através da sua manifestação em ato falho – quando o próprio indivíduo ou corpo social deixa escapar, sem plena consciência disto, aquilo que está por trás.

A maior dificuldade da mentira é vê-la emergir, pois ela, tão metamorfoseante, não surge expondo-se, mas é como produto do próprio intencionar algo ou participar de um jogo de intencionalidades. Não aparece tão logo pronta, e nunca mantém-se pronta. Não há propriamente teleologia na mentira, mas ela é usada para fins que são diversos dela (sendo ela nunca algo, mas simplesmente um meio e um instrumento – é tentativa de congelar o movimento para que possa vê-lo, somada ao desejo de negar que isso não pode ser possível). Seu fim seria a afirmação de alguma verdade, caso não fosse sua característica o ódio e a tendência a fugir dela sempre, sentindo a necessidade de recriar-se. Tampouco a própria verdade é sua origem, mas a vontade de afirmar-se como tal, para logo depois escapar. Ela ocorre em diversos personagens e, sendo a mentira uma metamorfose constante, torna os próprios personagens metamorfose. Ela toma como objetos o enganador e o ingênuo, mas nunca aparece sem uma intenção. Tem sua vida na massa das intencionalidades e mantém crenças que a multiplicam: a cada vez que se tenta fixar uma crença ela busca meios para se auto-afirmar, para se realizar e se garantir. Deste modo ela deve sempre dizer-se como verdade.

E chegamos a um ponto crítico com relação à manifestação de toda mentira: ela depende da vontade de crença, depende da possibilidade de ser colocada com algo que é fixo e atemporal, e no âmbito prático como algo que deve ser seguido e realizado (seja na sua exposição como inicialmente foi dada ou na sua versão metamorfoseada: a mentira que recria a si mesma multiplicada em formas diferentes, na própria intenção de enganar e fazer com que se convença de segui-la ou fazê-la através de justificações que não são as mesmas da sua origem). A crença na verdade e a necessidade de impô-la (para que assim possa ela mesma auto enganar-se e acreditar-se como verdade através da sua reflexão na aceitação do outro) são os motores mais básicos do movimento interno da mentira.

Passamos disto para exemplos um pouco menos abstratos, colocando conceitos que em seu conflito e abstrações trazem a tona apenas algumas estruturas de sua manifestação (o caso da relação de uma consciência com a outra, a manifestação do poder e a liberdade) chegando posteriormente à análise de casos específicos na literatura e no cinema – uma leitura desta questão na obra “1984” de George Orwell e no filme “O Show de Trumman”.


[1] Este “outro” ou “outros” não precisa ser entendido necessariamente como sujeito. Mostrarei adiante como a mentira ‘funciona’ quando aceita enquanto uma verdade, em um mecanismo automatizado. Não deixa-se assim a vítima de ser vítima, nem a verdade (da mentira) de ser o outro que lhe vitima.